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eso1246pt — Nota de Imprensa Científica

Planeta anão Makemake não tem atmosfera

Mundo gélido distante revela pela primeira vez os seus segredos

21 de Novembro de 2012

Os astrónomos utilizaram três telescópios nos observatórios do ESO, no Chile, para observar o planeta anão Makemake, no momento em que este passou em frente a uma estrela distante, bloqueando assim a radiação emitida pela estrela. As novas observações permitiram verificar pela primeira vez se o planeta se encontra rodeado por uma atmosfera. Este mundo frígido tem uma órbita que o leva ao Sistema Solar exterior e pensava-se que teria uma atmosfera como a de Plutão (eso0908). No entanto, verificou-se agora que tal não é o caso. Os cientistas mediram também pela primeira vez a densidade de Makemake. Os novos resultados serão publicados na revista Nature a 22 de novembro de 2012.

O planeta anão Makemake [1] tem cerca de dois terços do tamanho de Plutão e viaja à volta do Sol numa órbita distante, que se situa para lá de Plutão, mas mais próximo do Sol do que Éris, o planeta anão de maior massa conhecido no Sistema Solar (eso1142). Observações anteriores do gélido Makemake mostraram que este corpo é similar aos outros planetas anões seus companheiros, o que levou os astrónomos a pensar que possuiria uma atmosfera semelhante à de Plutão. No entanto, este novo estudo mostra que, tal como Éris, Makemake não se encontra rodeado por uma atmosfera significativa.

A equipa liderada por José Luis Ortiz (Instituto de Astrofísica de Andalucía, CSIC, Espanha), combinou várias observações obtidas por três telescópios situados nos observatórios de La Silla e Paranal do ESO, no Chile - o Very Large Telescope (VLT), o New Technology Telescope (NTT) e o TRAPPIST (sigla do inglês para TRAnsiting Planets and PlanetesImals Small Telescope) - com dados de outros telescópios mais pequenos situados na América do Sul [2], para olhar para Makemake à medida que este passava em frente a uma estrela distante [3].

"Quando Makemake passou em frente da estrela, a radiação emitida por esta foi bloqueada, a estrela desapareceu e apareceu muito abruptamente, em vez de ir desaparecendo lentamente e depois indo-se tornando gradualmente mais brilhante. Isto significa que o pequeno planeta anão não tem uma atmosfera significativa," diz José Luis Ortiz. "Pensava-se que Makemake tivesse desenvolvido uma atmosfera - o facto de não haver sinais de uma, mostra apenas o quanto temos ainda a aprender sobre estes corpos misteriosos. Descobrir as propriedades de Makemake pela primeira vez é um grande passo em frente no estudo deste grupo selecto de planetas anões gélidos."

A falta de luas do Makemake e a grande distância a que se encontra de nós, tornam-no difícil de estudar [4], por isso o pouco que sabemos dele é apenas aproximado. As novas observações da equipa acrescentam muito mais detalhes ao nosso conhecimento deste objeto - determinando o seu tamanho de forma mais precisa, impondo limites a uma possível atmosfera e estimando a densidade do planeta anão pela primeira vez. Os dados permitiram igualmente medir qual a quantidade de luz solar que é refletida pela superfície do planeta - o seu albedo [5]. O albedo de Makemake é cerca de 0.77, comparável ao de neve suja, maior que o de Plutão, mas menor que o do Éris.

Conseguiu-se observar Makemake com tanto pormenor, apenas porque este passou em frente de uma estrela - um fenómeno conhecido como uma ocultação estelar. Estas oportunidades raras permitem aos astrónomos descobrir imenso sobre as atmosferas, muitas vezes ténues e delicadas, que se encontram em torno destes distantes mas importantes membros do Sistema Solar e fornecem informações precisas sobre as suas outras propriedades.

As ocultações são particularmente invulgares no caso de Makemake, já que este é um objeto que se move numa região do céu com relativamente poucas estrelas. Predizer de forma precisa e detectar estes eventos raros é extremamente difícil, e a observação bem sucedida levada a cabo por uma equipa de observação bem coordenada, espalhada por diversos locais em toda a América do Sul, é uma façanha extraordinária.

"Plutão, Éris e Makemake estão entre os maiores exemplos dos inúmeros corpos gélidos que orbitam muito longe do Sol," diz José Luis Ortiz. "As nossas novas observações fizeram avançar muito o conhecimento sobre um dos maiores, Makemake. Poderemos agora usar esta informação para explorar mais a fundo os intrigantes objetos que se situam nesta região do espaço." 

Notas

[1] Makemake foi inicialmente conhecido por 2005FY9. Descoberto uns dias depois da Páscoa, em Março de 2005, o objeto adquiriu o nome informal de Coelhinho da Páscoa. Em Julho de 2008 foi-lhe dado o nome oficial de Makemake. Makemake é o criador da humanidade e deus da fertilidade, nos mitos dos povos nativos da Ilha da Páscoa.

Makemake é um dos cinco planetas anões reconhecidos, até agora, pela União Astronómica Internacional. Os outros são Ceres, Plutão, Haumea e Éris. Mais informação sobre planetas anões e planetas encontra-se disponível nas páginas da União Astronómica Internacional.

[2] Outro dos telescópios utilizado nesta campanha de observações foi o telescópio de 0.84 metros, instalado pela Católica del Norte, Universidade do Chile. Este telescópio encontra-se no Cerro Armazones, futuro local do European Extremely Large Telescope (E-ELT).

[3] Makemake passou em frente da estrela de fraca luminosidade NOMAD 1181-0235723 (NOMAD refere-se a Naval Observatory Merged Astronomic Dataset) no dia 23 de abril de 2011. A equipa observou este evento com o auxílio de sete telescópios diferentes, espalhados pelo Brasil e pelo Chile. O fenómeno durou apenas um minuto, por isso os astrónomos tiveram que utilizar uma câmara especializada de alta-velocidade, conhecida como ULTRACAM (eso0520) e uma câmara infravermelha de alta-velocidade, chamada ISAAC, para capturar o evento.

[4] No caso de objetos que têm em órbita um ou mais satélites, os movimentos destas luas podem ser utilizados para deduzir a massa do objeto. Isto não foi possível para o caso de Makemake.

[5] Calculou-se que o planeta anão tem um albedo geométrico de 0.77 ± 0.03, maior que o de Plutão, mas mais pequeno que o de Éris. Um albedo de 1 representa um corpo que reflete perfeitamente, e um albedo de 0 representa uma superfície negra, que não reflete nada. As observações, juntamente com resultados anteriores, indicam que Makemake tem uma densidade de 1.7 ± 0.3 gramas por centímetro cúbico o que, por sua vez, permitiu à equipa inferir a forma e a aparência de um esferóide oblongo - uma esfera ligeiramente achatada em ambos os pólos - com eixos de 1430 ± 9 quilómetros e 1502 ± 45 quilómetros. Makemake não apresenta uma atmosfera global do tipo da de Plutão, ao nível de uma milésima da atmosfera de Plutão. No entanto, pode ter um atmosfera que cubra só parte da superfície. Uma tal atmosfera local, que é possível segundo os modelos teóricos, não ficou excluída por estas observações. 

Informações adicionais

Este trabalho foi apresentado num artigo científico "Albedo and atmospheric constraints of dwarf planet Makemake from a stellar occultation" que será publicado na revista Nature a 22 de novembro de 2012.

A equipa é composta por J. L. Ortiz (Instituto de Astrofísica de Andalucía, CSIC, Espanha), B. Sicardy (Observatoire de Paris; CNRS; Université Pierre et Marie Curie; Institut Universitaire de France), F. Braga-Ribas (Observatoire de Paris, CNRS, França; Observatório Nacional/MCTI, Brasil), A. Alvarez-Candal (European Southern Observatory, Chile; Instituto de Astrofísica de Andalucía, CSIC, Espanha), E. Lellouch (Observatoire de Paris, CNRS, França), et al.

Para uma lista completa dos autores e respectivas afiliações, ver o artigo na Nature.

O ano de 2012 marca o quinquagésimo aniversário da fundação do Observatório Europeu do Sul (ESO). O ESO é a mais importante organização europeia intergovernamental para a investigação em astronomia e é o observatório astronómico mais produtivo do mundo. O ESO é financiado por 15 países: Alemanha, Áustria, Bélgica, Brasil, Dinamarca, Espanha, Finlândia, França, Holanda, Itália, Portugal, Reino Unido, República Checa, Suécia e Suíça. O ESO destaca-se por levar a cabo um programa de trabalhos ambicioso, focado na concepção, construção e funcionamento de observatórios astronómicos terrestres de ponta, que possibilitam aos astrónomos importantes descobertas científicas. O ESO também tem um papel importante na promoção e organização de cooperação na investigação astronómica. O ESO mantém em funcionamento três observatórios de ponta, no Chile: La Silla, Paranal e Chajnantor. No Paranal, o ESO opera o Very Large Telescope, o observatório astronómico óptico mais avançado do mundo e dois telescópios de rastreio. O VISTA, o maior telescópio de rastreio do mundo que trabalha no infravermelho e o VLT Survey Telescope, o maior telescópio concebido exclusivamente para mapear os céus no visível. O ESO é o parceiro europeu do revolucionário telescópio ALMA, o maior projeto astronómico que existe atualmente. O ESO encontra-se a planear o European Extremely Large Telescope, E-ELT, um telescópio de 39 metros que observará na banda do visível e próximo infravermelho. O E-ELT será "o maior olho no céu do mundo". 

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Este texto é a tradução da Nota de Imprensa do ESO eso1246, cortesia do ESON, uma rede de pessoas nos Países Membros do ESO, que servem como pontos de contacto local com os media, em ligação com os desenvolvimentos do ESO. A representante do nodo português é Margarida Serote.
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Sobre a Nota de Imprensa

No. da Notícia:eso1246pt
Nome:Makemake
Facility:New Technology Telescope, TRAnsiting Planets and PlanetesImals Small Telescope, Very Large Telescope
Science data:2012Natur.491..566O

Imagens

Impressão artística da superfície do planeta anão Makemake
Impressão artística da superfície do planeta anão Makemake
Percurso da sombra de Makemake quando se cruzou com a Terra a 23 de abril de 2011
Percurso da sombra de Makemake quando se cruzou com a Terra a 23 de abril de 2011

Vídeos

A ocultação do planeta anão Makemake a 23 de abril de 2011
A ocultação do planeta anão Makemake a 23 de abril de 2011

Veja também